Na altura, eu vivia obcecada com ballet, apesar do único desporto indicado para mim ser a natação (que praticava com relativo afinco, muito frio e um fato de banho verde do qual nunca me hei-de esquecer).
Portanto, a minha primeira Barbie foi a Bailarina.
Adorava derreter doces palavras em torno da minha emblemática experiência com a boneca, adorava escrever que queria ter olhos azuis e cabelos loiros e meio ásperos. Mas não. Tinha, aliás, tinha uma boneca sevilhana com uma cinta bem mais fina e um peito bem mais proeminente que o da Barbie. Só que lá em casa as coisas eram claras: as bonecas não são gente e a gente é que é, por isso não somos como as bonecas. "E agora vamos para a mesa".
Não tive tempo para sofrer a querer ter o corpo ou o cabelo da Barbie. Nem o da sevilhana que rodava sobre si própria ciente da real improbabilidade de Ser.
A bem dizer, passava as minhas semanas de mochila às costas e de cabelo molhado: a única coisa que ambicionava era corrigir o problema cervical que me punha naquele calvário de transportes públicos ressoados. Casa - Escola - Piscina - Casa.
Naturalmente, percebia que a Barbie tinha uma vida melhor que a minha, mas eu sabia - desde cedo - que havia pessoas com vidas diferentes. Sabia desde o dia em que encontrei um sapato de salto alto vermelho, de Barbie. Que guardei em formato de tesouro pessoal, a minha mãe só tinha sapatos pretos.
Os anos passaram, a minha irmã herdou a Barbie, cortou-lhe o cabelo pelos ombros e um dia chegou a casa de lágrimas nos olhos. Tinha-se envolvido numa disputa com um cão e ele ganhou. Comeu a cabeça da Barbie inteira, assim, engolida sem uma trincadela.
A bestialidade só era ultrapassada por aquele corpo decepado que teimava em aparecer entre os outros brinquedos.
Não tive mais nenhuma Barbie.
Hoje soube que ela faz 55 anos, cheia de profissões, casas, carros e roupa extravagante. Com uma vida cheia: a mesma de sempre. A que eu sempre quis. A tal que sempre me fez desdobrar em atividades e que me põe a conduzir 400 quilómetros só para apresentar um evento de meia hora.
Os anos passaram. Para mim, e para ti.
Nunca dancei ballet e abandonei a natação. Ainda tenho o sapato de boneca que encontrei na rua. E hoje, Barbie: já não te admiro pela vida vida que pareces ter.
Compreendo-te e sei. Sei que, apesar do que se vê, não é fácil ser a rapariga dos sapatos vermelhos. E percebo um bocadinho melhor o teu cabelo áspero.

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