Nos anos 50 vivia-me mal no nosso país. As famílias eram numerosas, os recursos bem mais escassos. Rosa nasceu, como os outros 9 irmãos sem grande carinho ou contemplação.
Partilhou cama, prato e brincadeiras. No primeiro dia de aulas: foi descalça.
Afinal, não se consegue partilhar o que não se tem.
Quarta classe feita foi empregada de servir. Serviu pai, mãe, filhos. Um deles especial que aos 11 anos já lhe roubava o coração cheio de sentimentos que não se podiam explicar.
A mãe dele, mais astuta, percebeu as atenções redobradas da altura de encher aquele prato, na altura de passar aquela camisa e antes que as crianças se transformassem um sentimento pueril em amor: mandou a empregada embora.
A Rosa fez as malas apanhou a camioneta e veio para o Porto. Foi fazer o que sabia fazer: limpar, esfregar, cozinhar. Falar pouco, trabalhar muito. Ao domingo, de folga, ia sentar-se nos bancos solarengos da Rotunda da Boavista ocasionalmente presentada com uma caixa de línguas de gato por pretendentes bem falantes. Aceitava, mas não chegava a abri-las.
Uma dia Rosa estava a sacudir os tapetes no jardim da casa onde internava a vida e ele estava lá. Tinha vindo de bicicleta vê-la. O menino a quem ela passava as camisas era agora o homem que não a tinha esquecido. Casaram. Viveram numa barraca num pós 25 de abril de revolução e muitos sonhos. Eu nasci.
Emigraram. Passamos para uma casa maior. Nasceu a minha irmã. A Rosa, despedida de mansão acusada de roubar uma posta de bacalhau quando estava grávida, trabalhava nas limpezas de sempre, mas depois do jantar feito e das miúdas deitadas pegava recusava o cansaço e lia. Ela queria conduzir. Meses depois: passou. Aos tremeliques, mas passou. Na verdade tínhamos de parar de 50 em 50 quilómetros porque o Datsun 1200, carro preto cantado por Jorge Ferreira não aguentava mais.
Ela ria-se, nós amuávamos no banco de trás do qual não queríamos sair: luxo e orgulho que sentíamos no nosso primeiro carro.
Os anos passaram, a Rosa, sentimentos aos trambolhões, deixou de ser a empregada de limpeza para ser a telefonista. Resolve todos os problemas da empresa, conhece-a por dentro, sabe-lhe as manhas. Essa mesma Rosa, que 60 já volvidos, lá foi até às Novas Oportunidades “para saber mexer no computador”. Agora domina os mails. Volta e meia lá aparece a caixa cheia de anedotas e imagens e sempre um… “não queres vir jantar hoje?”
Esta é a mesma Rosa que oferece o café aos desempregados que cabisbaixo lhe entregam o currículo sem réstia de esperança. Esta é a mesma Rosa que entre dois dedos de uma conversa solta termina sempre a dizer-lhes: “não desista, vale sempre a pena querer ser mais”.
quarta-feira, 12 de março de 2014
domingo, 9 de março de 2014
A Minha Primeira Barbie
Na altura, eu vivia obcecada com ballet, apesar do único desporto indicado para mim ser a natação (que praticava com relativo afinco, muito frio e um fato de banho verde do qual nunca me hei-de esquecer).
Portanto, a minha primeira Barbie foi a Bailarina.
Adorava derreter doces palavras em torno da minha emblemática experiência com a boneca, adorava escrever que queria ter olhos azuis e cabelos loiros e meio ásperos. Mas não. Tinha, aliás, tinha uma boneca sevilhana com uma cinta bem mais fina e um peito bem mais proeminente que o da Barbie. Só que lá em casa as coisas eram claras: as bonecas não são gente e a gente é que é, por isso não somos como as bonecas. "E agora vamos para a mesa".
Não tive tempo para sofrer a querer ter o corpo ou o cabelo da Barbie. Nem o da sevilhana que rodava sobre si própria ciente da real improbabilidade de Ser.
A bem dizer, passava as minhas semanas de mochila às costas e de cabelo molhado: a única coisa que ambicionava era corrigir o problema cervical que me punha naquele calvário de transportes públicos ressoados. Casa - Escola - Piscina - Casa.
Naturalmente, percebia que a Barbie tinha uma vida melhor que a minha, mas eu sabia - desde cedo - que havia pessoas com vidas diferentes. Sabia desde o dia em que encontrei um sapato de salto alto vermelho, de Barbie. Que guardei em formato de tesouro pessoal, a minha mãe só tinha sapatos pretos.
Os anos passaram, a minha irmã herdou a Barbie, cortou-lhe o cabelo pelos ombros e um dia chegou a casa de lágrimas nos olhos. Tinha-se envolvido numa disputa com um cão e ele ganhou. Comeu a cabeça da Barbie inteira, assim, engolida sem uma trincadela.
A bestialidade só era ultrapassada por aquele corpo decepado que teimava em aparecer entre os outros brinquedos.
Não tive mais nenhuma Barbie.
Hoje soube que ela faz 55 anos, cheia de profissões, casas, carros e roupa extravagante. Com uma vida cheia: a mesma de sempre. A que eu sempre quis. A tal que sempre me fez desdobrar em atividades e que me põe a conduzir 400 quilómetros só para apresentar um evento de meia hora.
Os anos passaram. Para mim, e para ti.
Nunca dancei ballet e abandonei a natação. Ainda tenho o sapato de boneca que encontrei na rua. E hoje, Barbie: já não te admiro pela vida vida que pareces ter.
Compreendo-te e sei. Sei que, apesar do que se vê, não é fácil ser a rapariga dos sapatos vermelhos. E percebo um bocadinho melhor o teu cabelo áspero.
Portanto, a minha primeira Barbie foi a Bailarina.
Adorava derreter doces palavras em torno da minha emblemática experiência com a boneca, adorava escrever que queria ter olhos azuis e cabelos loiros e meio ásperos. Mas não. Tinha, aliás, tinha uma boneca sevilhana com uma cinta bem mais fina e um peito bem mais proeminente que o da Barbie. Só que lá em casa as coisas eram claras: as bonecas não são gente e a gente é que é, por isso não somos como as bonecas. "E agora vamos para a mesa".
Não tive tempo para sofrer a querer ter o corpo ou o cabelo da Barbie. Nem o da sevilhana que rodava sobre si própria ciente da real improbabilidade de Ser.
A bem dizer, passava as minhas semanas de mochila às costas e de cabelo molhado: a única coisa que ambicionava era corrigir o problema cervical que me punha naquele calvário de transportes públicos ressoados. Casa - Escola - Piscina - Casa.
Naturalmente, percebia que a Barbie tinha uma vida melhor que a minha, mas eu sabia - desde cedo - que havia pessoas com vidas diferentes. Sabia desde o dia em que encontrei um sapato de salto alto vermelho, de Barbie. Que guardei em formato de tesouro pessoal, a minha mãe só tinha sapatos pretos.
Os anos passaram, a minha irmã herdou a Barbie, cortou-lhe o cabelo pelos ombros e um dia chegou a casa de lágrimas nos olhos. Tinha-se envolvido numa disputa com um cão e ele ganhou. Comeu a cabeça da Barbie inteira, assim, engolida sem uma trincadela.
A bestialidade só era ultrapassada por aquele corpo decepado que teimava em aparecer entre os outros brinquedos.
Não tive mais nenhuma Barbie.
Hoje soube que ela faz 55 anos, cheia de profissões, casas, carros e roupa extravagante. Com uma vida cheia: a mesma de sempre. A que eu sempre quis. A tal que sempre me fez desdobrar em atividades e que me põe a conduzir 400 quilómetros só para apresentar um evento de meia hora.
Os anos passaram. Para mim, e para ti.
Nunca dancei ballet e abandonei a natação. Ainda tenho o sapato de boneca que encontrei na rua. E hoje, Barbie: já não te admiro pela vida vida que pareces ter.
Compreendo-te e sei. Sei que, apesar do que se vê, não é fácil ser a rapariga dos sapatos vermelhos. E percebo um bocadinho melhor o teu cabelo áspero.
sábado, 8 de março de 2014
Dia Internacional da Mulher
Ser mulher, no Dia Internacional da mesma é:
. Acordar com uma borbulha persistente;
. Começar o dia com um sumo verde;
. Arrumar o Quarto que está em estilo tenda tuareg (mas em mau);
. Almoçar um sumo verde (para estar no meu melhor nos dois métiers que tenho hoje);
. Rezar para que o sumo verde não faça kapow! (vocês sabem);
. Parar no Shopping e comprar dois outfits novos (just in case);
. Conduzir até à fronteira;
. Animar dezenas de mulheres que, ao contrário de mim, tiveram tempo para fazer o buço;
. Conduzir de volta até à Invicta (o meu vicio do momento é acompanhar a musica da rádio com um impecável sotaque alemão);
. Entrar na cabine com ar triunfante e desbundar House Music como se não houvesse amanhã, mesmo estando quase lá.
So help me god.
. Acordar com uma borbulha persistente;
. Começar o dia com um sumo verde;
. Arrumar o Quarto que está em estilo tenda tuareg (mas em mau);
. Almoçar um sumo verde (para estar no meu melhor nos dois métiers que tenho hoje);
. Rezar para que o sumo verde não faça kapow! (vocês sabem);
. Parar no Shopping e comprar dois outfits novos (just in case);
. Conduzir até à fronteira;
. Animar dezenas de mulheres que, ao contrário de mim, tiveram tempo para fazer o buço;
. Conduzir de volta até à Invicta (o meu vicio do momento é acompanhar a musica da rádio com um impecável sotaque alemão);
. Entrar na cabine com ar triunfante e desbundar House Music como se não houvesse amanhã, mesmo estando quase lá.
So help me god.
sexta-feira, 7 de março de 2014
Do inicio
Há muito tempo que queria começar um blog, mas não encontrava - de forma alguma - o leit motiv que o justificasse.
Antes de serem moda tive vários blogs que, por teimosia, ainda mantenho ativos, mas que perderam a atualidade e a atualização.
Então tive uma epifania.
A primeira que tive foi a de ir à Zara fora dos Saldos: evento que a minha religião não permite. (Há um pastor no Quénia que não permite a utilização de roupa interior, cada um é com a sua crença).
Eu tenho paranóias. E apesar de ter um armário cheio de roupa, como a festa em que toco no próximo sábado tem dress code: fiquei imediatamente nua. Eu bem tento culpar o dress code, mas o facto das miúdas com quem vou partilhar a cabine estarem cheias de colagénio pode muito bem estar a ter uma influencia considerável.
Escolhi umas coisas ao caso, ciente de que não gostava verdadeiramente de nada, e entrei provador preparada para a habitual singela mistura de suor e chulé. E então sim, eu tive uma epifania (a de à pouco foi só para introduzir o contexto da coisa).
Encontrei não um, não um... Mas sim um ninho de cabelos brancos. Mesmo ali, na repa. Pior: toda a gente sabe que estes cabelos têm a capacidade de brilhar mais do que todos os outros. E ali estavam eles.
Senti uma ligeira tontura, paguei qualquer coisa na caixa (que decidi devolver ainda antes de sair do Centro Comercial) e fui comprar o meu Clarins Lottus amigo de toda a imperfeição, coisa bonita. Borbulha: é o que é.
Sejam bem vindos.
Antes de serem moda tive vários blogs que, por teimosia, ainda mantenho ativos, mas que perderam a atualidade e a atualização.
Então tive uma epifania.
A primeira que tive foi a de ir à Zara fora dos Saldos: evento que a minha religião não permite. (Há um pastor no Quénia que não permite a utilização de roupa interior, cada um é com a sua crença).
Eu tenho paranóias. E apesar de ter um armário cheio de roupa, como a festa em que toco no próximo sábado tem dress code: fiquei imediatamente nua. Eu bem tento culpar o dress code, mas o facto das miúdas com quem vou partilhar a cabine estarem cheias de colagénio pode muito bem estar a ter uma influencia considerável.
Escolhi umas coisas ao caso, ciente de que não gostava verdadeiramente de nada, e entrei provador preparada para a habitual singela mistura de suor e chulé. E então sim, eu tive uma epifania (a de à pouco foi só para introduzir o contexto da coisa).
Encontrei não um, não um... Mas sim um ninho de cabelos brancos. Mesmo ali, na repa. Pior: toda a gente sabe que estes cabelos têm a capacidade de brilhar mais do que todos os outros. E ali estavam eles.
Senti uma ligeira tontura, paguei qualquer coisa na caixa (que decidi devolver ainda antes de sair do Centro Comercial) e fui comprar o meu Clarins Lottus amigo de toda a imperfeição, coisa bonita. Borbulha: é o que é.
Sejam bem vindos.
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